O custo de colocar comida na mesa voltou a pesar no bolso dos consumidores. Em Mato Grosso do Sul, o tomate chegou a R$ 200 a caixa na Ceasa/MS (Centrais de Abastecimento de Mato Grosso do Sul), enquanto a alface crespa e a cebola nacional também registraram aumentos na primeira semana de outubro.
A alta ocorre em meio à aceleração da inflação brasileira e reacende o debate sobre a capacidade do governo do presidente Lula (PT) de controlar os preços e preservar o poder de compra da população.
Entre os dias 5 e 10 de outubro, o tomate ficou 5% mais caro no mercado atacadista, passando de R$ 190 para R$ 200 a caixa. A cotação está R$ 70 acima da média habitual, estimada em R$ 130.
A alface crespa teve aumento de 11,2%, de R$ 40 para R$ 45 a caixa de sete quilos, enquanto a cebola nacional subiu 10%, passando de R$ 90 para R$ 100 o saco de 20 quilos.
Os aumentos atingem produtos comuns na alimentação cotidiana e pressionam o orçamento doméstico. Embora as cotações da Ceasa/MS sejam referências do mercado atacadista, e não os preços finais dos supermercados, as variações podem repercutir no comércio varejista.
Inflação volta a subir e ultrapassa teto da meta
A pressão sobre os preços também aparece nos indicadores nacionais. O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), calculado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), avançou 0,82% em setembro de 2026, registrando a maior inflação para o mês desde 2021. Em 12 meses, o índice acumulou alta de 4,58%, acima do teto de 4,5% da meta estabelecida para a inflação.
O grupo de alimentação e bebidas subiu 0,83% em setembro, interrompendo uma sequência de três meses de queda. Entre os principais aumentos, o tomate disparou 37,76% no mês, enquanto a batata-inglesa ficou 24,07% mais cara. Os alimentos consumidos dentro de casa registraram alta de 0,96%.
O resultado mostra que a redução dos preços observada nos meses anteriores perdeu força. Para as famílias, a retomada das altas representa uma dificuldade adicional, especialmente para quem destina grande parte da renda à compra de alimentos e outros produtos essenciais.
Gastos públicos e déficit ampliam pressão sobre a política econômica
A dificuldade de manter a inflação sob controle também coloca em discussão a condução das contas públicas. O governo federal enfrenta o desafio de equilibrar despesas, arrecadação e investimentos sem ampliar as pressões econômicas que dificultam a estabilidade dos preços.
Dados divulgados pela Secretaria do Tesouro Nacional mostram que o Governo Central, que reúne Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central, registrou déficit primário de R$ 13,6 bilhões em agosto. No acumulado de janeiro a agosto de 2026, o saldo negativo chegou a R$ 94,9 bilhões.
O cenário fiscal também aparece nas medidas de contenção de despesas. Em setembro, o governo reduziu de R$ 17,9 bilhões para R$ 16,1 bilhões o volume total de gastos mantidos sob bloqueio ou contingenciamento no Orçamento de 2026. Do montante atualizado, R$ 2,4 bilhões correspondiam a bloqueios e R$ 13,6 bilhões a contingenciamentos.
Os números alimentam o debate sobre o ritmo das despesas públicas e seus efeitos sobre a economia. Quando os gastos crescem sem uma compensação adequada nas receitas ou sem espaço fiscal suficiente, podem contribuir para sustentar a demanda e dificultar o trabalho de controle da inflação. O efeito depende, porém, da composição das despesas, das condições econômicas e da resposta da política monetária.
A alta dos alimentos, por sua vez, não pode ser atribuída exclusivamente aos gastos federais. No caso do tomate, da alface e da cebola, fatores climáticos, perdas na produção e redução da oferta ajudam a explicar a elevação das cotações. Ainda assim, a inflação acima do teto da meta e o desequilíbrio das contas públicas mantêm a política econômica sob pressão.
Chuvas reduzem oferta e encarecem hortaliças
Em Mato Grosso do Sul, a Ceasa/MS aponta as chuvas nas regiões produtoras e a redução da oferta como fatores importantes para explicar a alta recente.
No caso da alface, as precipitações registradas em setembro nas áreas produtoras de São Paulo prejudicaram a qualidade das folhas, provocaram perdas nas lavouras e reduziram o volume disponível para comercialização.
A cebola também sofreu com as condições climáticas. Em regiões produtoras de Minas Gerais e Goiás, as chuvas dificultaram a colheita e comprometeram a qualidade de parte dos bulbos. O encerramento próximo da safra paulista contribuiu para diminuir a disponibilidade do produto no mercado nacional.
Já o tomate enfrenta uma oferta restrita, com algumas regiões produtoras próximas do fim da primeira etapa da safra de inverno. Mesmo com as cotações elevadas, a demanda no atacado perdeu força, e há registros de lotes com frutos verdes e de menor calibre.
Cenoura, maçã e melão ficam mais baratos
Apesar da alta de parte dos hortifrutis, alguns produtos apresentaram redução de preços no mesmo período. A cenoura teve queda de 11,11%, com a caixa de 20 quilos passando de R$ 100 para R$ 90.
A maçã nacional recuou 9,17%, de R$ 120 para R$ 110 a caixa de 18 quilos, enquanto o melão espanhol ficou 6,59% mais barato, passando de R$ 80 para R$ 75 a caixa de 13 quilos.
As reduções estão relacionadas ao aumento da oferta, à intensificação das colheitas e ao ritmo de comercialização. No caso da cenoura, a maior disponibilidade em Cristalina, Goiás, contribuiu para pressionar as cotações para baixo.
O comportamento desigual dos preços mostra que a inflação dos alimentos não atinge todos os produtos da mesma forma. Enquanto condições climáticas e restrições de oferta encarecem determinados itens, o avanço das colheitas e a maior disponibilidade podem favorecer quedas em outros.
Para o consumidor, o efeito aparece diretamente no orçamento doméstico. Com alimentos mais caros e outros gastos essenciais comprometendo a renda, a capacidade de compra das famílias permanece sob pressão. Para o governo federal, o desafio é conciliar o controle da inflação com o equilíbrio das contas públicas, em um cenário no qual fatores climáticos e fiscais influenciam a trajetória dos preços.





