Política e Transparência

Crise no STF vira "ganha-ganha" para Flávio Bolsonaro

Bate-bocas entre ministros e desgaste de Alexandre de Moraes alimentam aposta da campanha em manter o Supremo no debate eleitoral






A campanha do candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, acompanhou de perto a sessão do STF (Supremo Tribunal Federal) que começou a discutir o relatório da PF (Polícia Federal) com supostas conversas entre Alexandre de Moraes e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.

O julgamento teve bate-bocas entre ministros e acabou interrompido por um pedido de vista de Flávio Dino.

Aliados avaliam que as divisões expostas no Supremo interessam à campanha em um momento de intensificação dos ataques de Flávio a Moraes.

A estratégia é associar o ministro ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, e tentar levar o desgaste da Corte para a disputa presidencial.

Os ministros não chegaram a decidir sobre a validade do relatório. Dino pediu mais tempo para analisar o caso após horas de discussão sobre se o material deveria ser julgado separadamente ou em conjunto com outro episódio envolvendo André Mendonça.

Esse segundo material, previsto para ser analisado na próxima quarta-feira (23), foi enviado pelo próprio Moraes ao presidente do STF, Edson Fachin, e questiona a atuação de Mendonça em investigações relacionadas ao Banco Master. Moraes acusa o colega de dar tratamento político a casos sob sua responsabilidade.

A discussão também interessa à campanha pelo papel de Mendonça. Indicado ao Supremo pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio, o ministro tem recebido apoio de aliados bolsonaristas pela condução das investigações sobre o banco.

Ao mesmo tempo, Mendonça é responsável no STF pela investigação sobre o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro para o qual Flávio teria pedido dinheiro a Vorcaro.

Gilmar Mendes, Moraes e Cristiano Zanin votaram pela análise conjunta dos casos envolvendo Mendonça e Moraes. Fachin, Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia defenderam julgamentos separados. Com o pedido de vista de Dino, o placar ficou em 4 a 3 e o caso envolvendo Moraes ficou sem data para retornar ao plenário.

Moraes entra no centro da campanha

A ofensiva contra Moraes ganhou espaço na campanha de Flávio no início de setembro, após a divulgação dos relatórios da PF sobre as supostas conversas entre o ministro e Vorcaro.

Desde então, Flávio passou a repetir que Lula e Moraes “viraram uma coisa só” e afirma, em atos e entrevistas, que “quem vota em Lula está votando em Alexandre de Moraes”. A campanha aposta nessa associação para mobilizar o eleitorado bolsonarista e levar o desgaste do ministro para a corrida presidencial.

O senador também endureceu o discurso contra Moraes, a quem chamou de “laranja podre” do Supremo, e passou a defender a renúncia do magistrado. A ofensiva apareceu ainda na propaganda eleitoral de Flávio na terça-feira, enquanto o STF discutia o caso.

Embates dentro do Supremo

A discussão sobre a forma de julgamento provocou uma série de atritos. Dino criticou a condução dos trabalhos por Fachin e classificou a sessão como “desastrada”. Gilmar Mendes e André Mendonça também trocaram acusações.

Uma das declarações que mais repercutiu entre aliados de Flávio partiu de Cármen Lúcia. A ministra afirmou estar em estado de “profunda consternação e tristeza” e disse que o Supremo provocou “mal-estar cívico” no país nos últimos dias.

Aliados do candidato interpretaram a declaração como um reconhecimento, vindo de dentro do próprio STF, de problemas que Flávio já vinha explorando politicamente durante a campanha.