Brasil

Histórico político une Jaques Wagner e Lula em meio a investigações de corrupção

Senador baiano, um dos principais aliados do presidente, já foi citado em outras apurações e agora é alvo de nova investigação relacionada ao caso Banco Master






Sob novas investigações relacionadas a suspeitas de corrupção, o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), afirmou nesta sexta-feira (19), em entrevista ao programa Bom Dia Brasil, da Rede Globo, ter recebido uma ligação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em solidariedade às acusações que voltou a enfrentar.

Segundo o senador, Lula, de quem é amigo há 48 anos, pediu que ele permanecesse firme diante das investigações e classificou as acusações como uma tentativa de desestabilizá-lo politicamente.

A relação entre Jaques Wagner e Lula começou ainda no movimento sindical do fim dos anos 1970. Na época, Wagner atuava no Polo Petroquímico de Camaçari, na Bahia, enquanto Lula liderava as mobilizações dos metalúrgicos no ABC Paulista.

Um dos principais nomes do PT e aliado histórico de Lula, Jaques Wagner voltou a ser alvo da Polícia Federal em apuração relacionada ao Banco Master.

Justamente por conta desse tipo de acusação, Lula ficou preso por 580 dias, entre abril de 2018 e novembro de 2019, após condenação em segunda instância na Operação Lava Jato. A soltura ocorreu depois que o STF mudou o entendimento sobre a execução antecipada da pena.

Ex-governador da Bahia, ex-ministro dos governos Lula e Dilma Rousseff e atualmente senador, Wagner já teve o nome envolvido em outras investigações ao longo da carreira política.

Desta vez, a apuração envolve a suspeita de recebimento de um apartamento avaliado em US$ 2,5 milhões, supostamente como vantagem indevida, além de R$ 14 milhões transferidos para empresas ligadas a familiares do senador e a apreensão de US$ 50 mil em espécie.

Da militância sindical ao núcleo do PT

Jaques Wagner iniciou sua trajetória profissional aos 24 anos, em 1975, como técnico de manutenção no Polo Petroquímico de Camaçari, na Bahia. Pouco tempo depois, tornou-se dirigente sindical e presidente do Sindicato dos Petroquímicos.

Foi nesse ambiente que conheceu Luiz Inácio Lula da Silva, durante um congresso de petroleiros realizado em 1980. No mesmo ano, participou da fundação do PT na Bahia e iniciou uma trajetória política que o levaria a ocupar alguns dos cargos mais importantes do país.

Wagner foi deputado federal por três mandatos consecutivos, ministro do Trabalho no primeiro governo Lula, eleito governador da Bahia em 2006 e reeleito em 2010. Posteriormente, integrou o governo Dilma Rousseff como ministro da Defesa e da Casa Civil. Em 2018, foi eleito senador.

Citações na Lava Jato e na Operação Cartão Vermelho

O primeiro grande episódio envolvendo o nome de Jaques Wagner surgiu em 2017, durante os desdobramentos da Operação Lava Jato.

O empresário Marcelo Odebrecht citou o senador em delações premiadas. Segundo os relatos, Wagner era identificado pelo codinome "Polo" nas planilhas internas da empreiteira, em referência ao Polo Petroquímico de Camaçari, onde iniciou sua vida profissional.

De acordo com os delatores, ele teria recebido R$ 12 milhões em propinas pagas em espécie. O senador sempre negou as acusações.

Também em 2017, Wagner foi indiciado na Operação Cartão Vermelho, que investigava supostos desvios na construção da Arena Fonte Nova, em Salvador, obra realizada para a Copa do Mundo de 2014.

Na ocasião, investigadores apontaram suspeitas de pagamento de até R$ 82 milhões em propina. O ex-governador negou irregularidades.

O caso Banco Master

A investigação atual tem origem em fatos diferentes das delações da Lava Jato e se concentra em movimentações financeiras, troca de mensagens e apreensões realizadas pela Polícia Federal.

Em 2017, quando ocupava o cargo de secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia, Jaques Wagner participou do processo de privatização da Ebal (Empresa Baiana de Alimentos), estatal responsável pela rede de supermercados Cesta do Povo.

A empresa foi vendida por R$ 15 milhões para o empresário Augusto Lima. Após a aquisição, Lima transformou os cartões utilizados pela rede em um sistema de crédito consignado voltado a servidores públicos, batizado de Credcesta.

O negócio cresceu rapidamente e, em 2020, passou a integrar o grupo do Banco Master, comandado pelo empresário Daniel Vorcaro.

Segundo a investigação, a Polícia Federal encontrou no celular de Augusto Lima mensagens trocadas com Jaques Wagner contendo informações detalhadas de um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,45 milhões, incluindo número da unidade, torre e metragem.

A suspeita dos investigadores é de que o imóvel tenha sido adquirido por meio de uma empresa ligada ao empresário e destinado ao senador como vantagem indevida. Durante as diligências, também foram apreendidos US$ 50 mil em espécie.

Outro ponto sob investigação envolve transferências financeiras realizadas por empresas ligadas a Augusto Lima e ao Banco Master.

De acordo com a Polícia Federal, a PKL Participações, empresa vinculada ao empresário, transferiu R$ 3,5 milhões para a BN Financeira, empresa pertencente ao enteado de Jaques Wagner.

Além disso, outros R$ 11 milhões teriam sido repassados pelo Banco Master à BK Financeira, empresa ligada à nora do senador.

As investigações seguem em andamento, enquanto a defesa de Jaques Wagner nega irregularidades e sustenta que os fatos serão esclarecidos durante o curso das apurações. (Com Rede Globo e agências nacionais)