Política e Transparência

Nunes Marques assume TSE, defende urna, eleições limpas e cita perigo da IA

Indicado ao STF por Jair Bolsonaro (PL) em 2020, ministro vai administrar tribunal durante as eleições presidenciais deste ano






Em discurso de posse o ministro Kassio Nunes Marques, novo presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), defendeu a confiabilidade das urnas eletrônicas e apontou a inteligência artificial como um dos principais desafios das eleições deste ano.

A cerimônia foi realizada nesta noite, na sede do TSE, em Brasília. O ministro André Mendonça também tomou posse como vice-presidente da Corte. Ambos serão responsáveis pela condução do pleito deste ano.

Durante a fala, Nunes Marques afirmou que a urna eletrônica é um "patrimônio institucional da democracia brasileira" e classificou o sistema eleitoral como "o mais avançado do mundo".

Segundo ele, a população deve confiar no voto direto, mesmo quando o resultado das urnas não corresponde às expectativas individuais.

“Cabe à justiça eleitoral preservar, aperfeiçoar e fortalecer continuamente a confiança pública em torno do sistema eletrônico de votação. Acredito na sabedoria do povo e reforço que o coração da democracia está em confiar no voto direto, ainda que individualmente essa escolha possa não parecer sóbria”, disse o ministro.

Kassio afirmou ainda que nunca existirá um modelo de Estado capaz de satisfazer simultaneamente todos os cidadãos. Ele defendeu a importância da democracia e disse que, apesar das imperfeições, o regime democrático possui mecanismos permanentes de autocorreção.

“Governos erram. Povos erram. Parlamentos erram. Tribunais erram. Mas, nas democracias, existe a possibilidade de revisão, de alternância, crítica e reconstrução institucional”, afirmou.

Ao fim do discurso, o ministro disse se comprometer em conduzir as eleições dentro da normalidade democrática, do respeito às instituições e da "confiança coletiva no voto livre".

“Que jamais percamos de vista uma verdade essencial: o destino da democracia brasileira continuará a ser escrito pela vontade livre e soberana do povo brasileiro”, defendeu.

Esta é a primeira vez que ministros indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) assumirão o comando do TSE durante uma eleição.

Neste ano, o filho do ex-presidente, Flávio Bolsonaro (PL), é um dos principais pré-candidatos da disputa, em oposição ao atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Em 2018 e 2022, anos com eleições disputadas por Jair Bolsonaro, os embates com o TSE foram frequentes. Os ataques e questionamentos às urnas eletrônicas também.

Bolsonaro chegou a ficar inelegível pelas declarações contra o sistema eleitoral. O PL, partido dele e de Flávio, também foi multado em quase R$ 23 milhões pela elaboração de um documento que questionava a credibilidade do pleito.

Especialistas em direito eleitoral consultados pela CNN, porém, afirmam que desde de então o TSE vem reforçando medidas para conter a disseminação de conteúdos enganosos e reduzir o impacto da desinformação sobre as urnas no processo eleitoral. A defesa do sistema eletrônico de votação neste ano deve ser um ponto de atenção da gestão de Kassio.

Climão

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), permaneceram lado a lado durante a posse de Kassio Nunes Marques na presidência do TSE, mas não trocaram cumprimentos nem conversaram ao longo da cerimônia, que durou mais de uma hora. 

Inteligência artificial

Durante o discurso de posse, Nunes Marques também citou a inteligência artificial como um dos principais desafios para as eleições de 2026.

Segundo ele, o processo eleitoral passou a ser fortemente impactado pelo ambiente digital e pelas plataformas tecnológicas.

O ministro afirmou que as campanhas eleitorais já não chegam às urnas sem antes atravessar algoritmos e que a disputa política deixou de ocorrer apenas nas ruas e nos espaços tradicionais da vida pública, passando a se desenvolver também, de forma intensa, no ambiente digital.

“Essa transformação amplia vozes, fortalece o popularismo e a democracia, o acesso ao debate público e, ao mesmo tempo, impõe novas responsabilidades institucionais, cívicas e éticas. O desafio contemporâneo não é apenas tecnológico, é também institucional, cultural e humano”, afirmou. (CNN)