Uma rede formada por pelo menos sete empresas teria recebido R$ 9,6 milhões somente em 2025 da operadora Santa Casa Saúde.
Os pagamentos, segundo reportagem do G1, estão no centro da investigação do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul) que apura suspeitas de desvio de recursos envolvendo integrantes da cúpula da Santa Casa de Campo Grande.
Segundo os investigadores, as empresas seriam controladas pelo advogado Paulo Duarte, apontado como sócio da presidente da instituição, Alir Terra Lima. Ele também atuava na área jurídica da Santa Casa Saúde enquanto empresas ligadas a ele eram contratadas pela própria operadora.
De acordo com a publicação, o MPMS suspeita que Alir tenha utilizado a posição de comando para favorecer o advogado nas contratações. Um dos pontos que chamou a atenção dos investigadores é que as empresas teriam funcionado em endereço relacionado à própria presidente e apresentariam estrutura reduzida ou praticamente inexistente.
Mesmo assim, passaram a receber recursos para atividades consideradas importantes dentro da operadora, incluindo atendimento ao cliente, cobrança, publicidade, gestão administrativa e telemedicina.
Parte dos R$ 9,6 milhões teria sido contabilizada como pagamento por serviços destinados a uma filial em Dourados. A investigação, porém, afirma não ter localizado contratos capazes de justificar esses repasses.
Dinheiro teria chegado às contas da presidente
Além dos contratos, o caminho percorrido pelo dinheiro também entrou na mira dos promotores. A apuração identificou transferências que, somadas, ultrapassam R$ 200 mil, saindo de contas de Paulo Duarte e chegando a contas pessoais de Alir Terra Lima.
Para o MPMS, as movimentações financeiras reforçam a suspeita de que a presidente teria recebido vantagens relacionadas ao esquema investigado.
Alir está presa preventivamente desde sexta-feira (11), quando foi deflagrada a Operação Antidotum. A defesa da dirigente nega irregularidades, contesta as acusações e manifestou indignação com a prisão.
Contrato de digitalização também é investigado
As suspeitas não ficam restritas à Santa Casa Saúde. Outra frente da investigação analisa a contratação de empresas responsáveis pela digitalização do acervo documental do hospital.
Segundo o MPMS, três empresas que participaram do processo de contratação estariam relacionadas ao empresário Maurício Aparecido Benites, também preso durante a Operação Antidotum.
A Santa Casa teria desembolsado R$ 750 mil pelo serviço, mas auditorias apontaram que apenas uma parcela do volume de documentos previsto no contrato teria sido efetivamente digitalizada.
A investigação aponta ainda que, depois de questionamentos sobre a baixa execução, houve discussão para reduzir em aproximadamente 66% a meta de digitalização, mantendo, entretanto, o pagamento mensal de R$ 150 mil.
Saques de R$ 49.999 entram na mira
A movimentação financeira da empresa contratada para digitalização é outro ponto considerado suspeito. Conforme a investigação, a conta bancária seria utilizada principalmente para receber recursos e posteriormente redistribuí-los.
Os investigadores identificaram uma série de saques em espécie no valor de R$ 49.999. A repetição chamou a atenção porque os valores ficavam R$ 1 abaixo dos R$ 50 mil.
A suspeita é de que a quantia tenha sido escolhida deliberadamente para tentar evitar mecanismos de comunicação e controle de operações financeiras. Parte do dinheiro também teria sido transferida a terceiros relacionados ao grupo investigado.
Documentos teriam sido escondidos da fiscalização
O MPMS também investiga uma possível tentativa de dificultar a fiscalização das contas e dos contratos da Santa Casa.
Contratos, notas fiscais, relatórios financeiros e demonstrativos contábeis teriam sido omitidos e deixado de ser apresentados ao Conselho Fiscal da instituição, à CGE (Controladoria-Geral do Estado) e ao Poder Judiciário.
Outra movimentação considerada suspeita ocorreu nos cadastros das sete empresas atribuídas a Paulo Duarte. Conforme a investigação, os endereços teriam sido alterados depois que um processo judicial revelou coincidências entre os locais cadastrados pelas empresas e um imóvel relacionado a Alir Terra Lima.
Operação levou seis para a prisão
A investigação resultou na Operação Antidotum, deflagrada na sexta-feira. Equipes do Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção) e do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) cumpriram seis mandados de prisão preventiva e 36 de busca e apreensão.
As ordens judiciais foram cumpridas em Campo Grande e Dourados, em Mato Grosso do Sul, além de Goiânia, em Goiás.
A operação apura suspeitas de fraudes em contratos, desvios de recursos e outras irregularidades envolvendo a administração da Santa Casa e empresas contratadas. As investigações continuam para identificar o destino dos valores e a participação de cada um dos envolvidos.
Foram presos:
Alir Terra Lima, diretora-presidente da Santa Casa de Campo Grande;
Alessandro Dias Junqueira, diretor administrativo da Santa Casa;
Rinaldo Romano, diretor Administrativo Financeiro na Santa Casa;
Paulo Guilherme Gutierre Mariosa, diretor de Finanças Adjunto da Santa Casa;
Monique Gregório, supervisora Serviço de Arquivo Médico e Estatística da Santa Casa;
Mauricio Aparecido Benites, empresário.
O g1 não localizou as defesas de Alessandro, Rinaldo Romano, Paulo Guilherme, Monique Gregório e Maurício Aparecido até a última atualização desta reportagem.
Segundo o MPMS, cerca de R$ 1,4 milhão teria sido desviado somente no primeiro ano do contrato de digitalização de prontuários. Em outro levantamento, o órgão estima um prejuízo de pelo menos R$ 3,5 milhões à Santa Casa, relacionado a pagamentos feitos a empresas pertencentes ao mesmo grupo.





