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Xi alerta Trump que desentendimento sobre Taiwan pode gerar conflito

Encontro entre presidentes acontece de forma amigável, mas Pequim reitera forte oposição à venda de armas dos EUA ao território e pressiona Washington






O presidente da China, Xi Jinping, disse ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que as negociações comerciais estavam progredindo no início de uma cúpula de dois dias nesta quinta-feira (14), mas alertou que a discordância sobre Taiwan poderia levar as relações a um caminho perigoso e até mesmo a um conflito.

As declarações de Xi sobre Taiwan, a ilha governada democraticamente e reivindicada por Pequim, ocorreram em uma reunião a portas fechadas entre os líderes das duas maiores economias do mundo, que durou mais de duas horas, segundo o Ministério das Relações Exteriores da China.

As falas representaram um alerta contundente – ainda que não inédito – durante uma ocasião pomposa, mas que, de resto, transcorreu de forma amigável e descontraída, embora o resumo das negociações divulgado por Washington não tenha mencionado Taiwan.

Em vez disso, o foco foi o desejo compartilhado pelos líderes de reabrir a importante via navegável do Estreito de Ormuz, efetivamente fechada devido à guerra com o Irã, e o aparente interesse de Xi em comprar petróleo americano para reduzir a dependência da China em relação ao fornecimento do Oriente Médio.

Com os índices de aprovação de Trump abalados por uma guerra com o Irã que não dá sinais de arrefecimento, a primeira visita de um presidente dos Estados Unidos à China em quase uma década ganhou ainda mais importância, em sua busca por conquistas econômicas.

"Há quem diga que esta pode ser a maior cúpula de todos os tempos", afirmou Trump ao presidente chinês em breves palavras de abertura, após uma cerimônia que contou com uma guarda de honra e multidões de crianças acenando com flores e bandeiras no Grande Salão do Povo, em Pequim.

Xi disse ao líder americano que as negociações preparatórias entre as equipes econômicas e comerciais dos EUA e da China, realizadas na Coreia do Sul na quarta-feira (13), alcançaram "resultados equilibrados e positivos", segundo um resumo divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores da China.

As negociações visavam manter uma frágil trégua comercial alcançada no último encontro entre os líderes, em outubro, quando Trump suspendeu as tarifas de três dígitos sobre produtos chineses e Xi recuou da ideia de restringir o fornecimento global de terras raras vitais.

O secretário do Tesouro, Scott Bessent, que liderou as negociações de quarta-feira, disse esperar progresso no estabelecimento de mecanismos para apoiar o comércio e o investimento bilaterais futuros, bem como um anúncio sobre grandes encomendas chinesas de aeronaves da Boeing (BA.N).

Linhas vermelhas da China

Trump esperava que Xi Jinping levantasse a espinhosa questão da venda de armas americanas para Taiwan, disse ele no início desta semana. Com o status de um pacote de US$ 14 bilhões aguardando a aprovação de Trump ainda incerto, a China reiterou sua forte oposição às vendas.

Os EUA são legalmente obrigados a fornecer a Taiwan os meios para se defender, apesar da ausência de relações diplomáticas formais.

O líder chinês disse a Trump que Taipei era a questão mais importante que enfrentavam e que, se mal administrada, poderia levar toda a relação EUA-China a uma situação extremamente perigosa, causando um confronto ou mesmo um conflito entre os países, segundo o resumo das conversas divulgado por Pequim.

As declarações de Xi foram dignas de nota, mesmo que Pequim já tivesse emitido fortes advertências sobre Taiwan no passado, disse Joe Mazur, analista de geopolítica da consultoria Trivium China.

"Ele está avisando os EUA, sem rodeios, para não brincarem com a situação", explicou Mazur.

Trump não respondeu à pergunta gritada de um repórter sobre se os líderes haviam discutido Taiwan, enquanto posava para fotos com Xi no Templo do Céu, Patrimônio Mundial da UNESCO, onde imperadores outrora oravam por boas colheitas.

Taipei afirmou que não houve nada de surpreendente na cúpula e que a pressão militar da China é a verdadeira ameaça à paz.

Xi oferece banquete a Trump

Em um suntuoso banquete de Estado na noite desta quinta-feira (14), horário local, com a presença de altos funcionários e executivos, Xi Jinping afirmou que a relação entre China e Estados Unidos é a mais importante do mundo.

"Precisamos fazer com que funcione e jamais estragar tudo", exclamou o líder chinês, antes que os convidados se deliciassem com um jantar de dez pratos, incluindo sopa de lagosta, pato assado ao estilo Pequim e tiramisu.

Os líderes tomarão chá e almoçarão juntos na sexta-feira (15), antes da partida de Trump.

Acompanhando Trump em sua visita está um grupo de CEOs que buscam resolver questões com a China, desde Elon Musk, visto na China como um visionário e ocasionalmente vilão, até Jensen Huang, CEO da Nvidia, uma adição de última hora à delegação.

Os Estados Unidos autorizaram cerca de dez empresas chinesas a comprar o poderoso chip de IA H200 da Nvidia, mas nenhuma entrega foi feita até o momento, informou a agência de notícias Reuters.

Posição enfraquecida de Trump

O presidente americano entrou nas negociações em uma posição enfraquecida.

Os tribunais americanos têm limitado sua capacidade de impor tarifas arbitrariamente sobre as exportações da China e de outros países, enquanto a guerra com o Irã aumentou a inflação nos Estados Unidos e elevou o risco do Partido Republicano de Trump perder o controle de uma ou ambas as casas do Legislativo nas eleições de meio de mandato de novembro.

Embora a economia chinesa tenha apresentado dificuldades, Xi Jinping não enfrenta pressão econômica ou política comparável.

Além dos aviões da Boeing, Washington busca vender produtos agrícolas e energia para a China a fim de reduzir o déficit comercial que há muito incomoda o líder republicano.

Pequim, por sua vez, quer que as restrições americanas às exportações de equipamentos para fabricação de chips e semicondutores avançados sejam flexibilizadas, disseram autoridades envolvidas no planejamento.

 

CNN Brasil