Campo Grande deve receber, a partir desta segunda-feira (23), cerca de 3 mil pessoas durante a COP15 (15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres). O evento, que reúne delegações estrangeiras e visitantes de diversos estados brasileiros, mobiliza especialmente o setor de serviços, que intensificou, nos últimos 60 dias, os preparativos para atender à demanda.
Na esfera pública municipal, no entanto, a movimentação se concentra em ações pontuais. Como um anfitrião que se organiza às pressas, a Capital passa por intervenções, principalmente nas regiões que devem concentrar a maior circulação de visitantes. A programação do evento está distribuída, simultaneamente, no Bosque Expo, na região norte da cidade; na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), na região sul; e no Auditório Arquiteto Rubens Gil de Camillo, na região leste.
Nessas áreas, a Prefeitura tem realizado serviços como: reforço na sinalização, pintura em estruturas urbanas e pequenas intervenções em vias, ciclovias e praças. Enquanto isso, o setor privado, especialmente hotelaria, bares e restaurantes, demonstra maior mobilização, com ações e investimentos voltados à recepção dos visitantes e até um guia disponível em português, inglês e espanhol, para facilitar o acesso a informações sobre hotéis, restaurantes e pontos turísticos.
Apesar da relevância global da COP15 e da visibilidade projetada para Campo Grande, a preparação da cidade parece ocorrer de forma pouco integrada com a população. As ações, embora perceptíveis, levantam questionamentos sobre a ausência de informação acessível e de estratégias claras de engajamento com o público, revelando desafios na construção de uma participação coletiva mais efetiva em torno de pautas ambientais de interesse global.



‘Me surpreendeu’, dizem moradores sobre evento
Moradores e comerciantes de regiões próximas à chamada “blue zone” — área de acesso restrito onde ocorrem as negociações oficiais — relatam não ter conhecimento sobre a realização do evento, sua importância ou até mesmo os possíveis impactos econômicos e sociais.
O empresário Edson do Nascimento, de 57 anos, diz ter sido pego de surpresa ao ficar sabendo da realização da COP15 em Campo Grande, há menos de uma semana do evento. “Olha, me surpreendeu. Eu não estava sabendo de nada disso. Não vi nenhuma divulgação em lugar nenhum. Nem outdoor, nem panfleto, e eu estou sempre atualizado, mas não vi.”
O empresário opina, ainda, que não acha que Campo Grande tem estrutura para receber o evento. “Como é que vai trazer tanta gente de fora para um evento tão grandioso igual esse que está vindo? Você anda em Campo Grande e você fica cada vez mais triste. Está tudo abandonado, cheio de buracos [no asfalto], comércios e lojas fechadas.”

O vendedor Maurício Silva, de 44 anos, compartilha da mesma opinião, e cita que Campo Grande enfrenta, neste momento, diversos problemas, principalmente com a condição do asfalto, agravada pelo período chuvoso. “Acredito que a cidade vai passar vergonha. Não tem nem asfalto, quanto mais infraestrutura para recepcionar esse pessoal e verbalizar isso para a população, porque a maioria das pessoas em Campo Grande nem sabe que vai ter esse encontro.”
Maurício também lamenta que não tenham ocorrido incentivos aos comerciantes locais, para que pudessem aproveitar a movimentação.“Deveria ter tido um acompanhamento de perto, principalmente da Prefeitura, do Estado, porque é um evento muito importante, vai levar o nome da nossa cidade. E, principalmente, a gente que trabalha no comércio, nem avisado a gente foi. Então, a gente fica meio que decepcionado, porque poderíamos oferecer muito mais.”

Cidade ‘em manutenção’
Conforme a diretora-executiva da Planurb (Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano), Mariana Massud, em conjunto com a Sisep (Secretaria de Infraestrutura e Serviços Urbanos), o município tem ampliado os trabalhos de zeladoria em espaços urbanos, com foco na manutenção de pontos turísticos, praças e demais espaços de convivência.
Além disso, a Agetran (Agência Municipal de Trânsito) ficou responsável por instalar placas bilíngues em pontos estratégicos da cidade, para facilitar a localização dos convidados estrangeiros do evento.
Já em relação à segurança pública, a GCM (Guarda Civil Metropolitana) mantém articulação com os governos federal e estadual para definir estratégias de atuação no município, por meio de grupos de trabalhos criados para coordenar as medidas de segurança. Além disso, é esperado reforço no efetivo da guarda em espaços onde ocorrerão as maiores concentrações de público.
Por fim, Mariana destaca que a COP15 tem sido trabalhada também nas escolas municipais, para que os alunos entendam a importância do evento. “Foi, até, um pedido que nós recebemos do Ministério do Meio Ambiente, para trazer esse pertencimento à população, para a população fazer parte desse momento.”

Guia bilíngue para estrangeiros
Segundo o presidente do Sindha-MS (Sindicato Empresarial de Hospedagem e Alimentação de Mato Grosso do Sul), Juliano Wertheimer, eventos dessa magnitude possuem necessidades e demandas específicas, que vão desde a oferta de restaurantes com cardápios veganos, até a disponibilidade de hotéis bilíngues e estabelecimentos que possam oferecer espaço para reuniões paralelas. O guia turístico e gastronômico, elaborado pelo sindicato, com conteúdo em português, espanhol e inglês, pode ser acessado clicando aqui.
“Tudo isso foi mapeado e informado [aos organizadores dos eventos], e eles estão com todas as demandas atendidas. Nós criamos um guia gastronômico, hoteleiro e de atrações turísticas [em formato] digital, que está sendo disponibilizado. E a rede hoteleira se preparou, reforçando a equipe, alguns fazendo abertura de cama, pequenos brindes ou welcome drinks para os hóspedes das delegações, e todos eles praticando tarifas regulares”, reforça o presidente do sindicato.
Até uma semana antes do evento, a rede hoteleira ainda contava com muitos leitos disponíveis e operando abaixo da lotação máxima. Em relação à procura, Juliano destaca alta em hotéis que oferecem serviços cinco estrelas. Em contrapartida, hotéis três e quatro estrelas apresentaram procura abaixo do esperado para o período. Os valores das diárias ainda disponíveis variam de R$ 250 a R$ 1.200.
“Nós estamos, inclusive, conversando com a organização do evento, conversando com a Prefeitura e o Governo para entender se ainda haverá uma busca, ou se o evento foi menor do que se esperava, ou se eles encontraram outras soluções de hospedagem. Os empresários se prepararam, mas ainda não houve a busca esperada”, completa.

‘Ainda tem muito a avançar’, diz sindicato
Para o presidente do Sindha-MS (Sindicato Empresarial de Hospedagem e Alimentação de Mato Grosso do Sul), Juliano Wertheimer, Campo Grande “tem muito ainda para avançar”, em termos de estrutura para receber grandes eventos.
A ausência de um centro de convenções de grande porte é apontada como um dos principais entraves, visto que, atualmente, a cidade não dispõe de um espaço climatizado com capacidade para eventos de grande escala, além da falta de infraestrutura adequada de áreas de estacionamento e locais para comportar lançamentos e feiras do setor produtivo.
Segundo a avaliação do presidente do sindicato, a implantação de um centro de convenções poderia impulsionar o turismo regional, ao atrair eventos corporativos ao longo da semana e estimular a permanência dos visitantes para lazer em destinos como Bonito, durante o fim de semana.
Com esse avanço, seriam necessários, também, a ampliação da rede hoteleira e o fortalecimento da malha aérea, considerada por Juliano “limitada em comparação a outros centros regionais”.
“[Congressos nacionais] têm etapas sul, sudeste, centro, oeste, norte, nordeste, e nós perdemos todos para Cuiabá, Goiânia e Brasília, pela falta de capacidade de realização dos eventos. A gente tem uma boa malha hoteleira, tem uma boa rede de bares e restaurantes, mas, se tu quiser trazer grandes eventos, aí a gente realmente está fora do circuito”, cita.
Atendimento bilíngue
Durante a realização da COP15, haverá atendimento bilíngue nas estruturas da segurança pública, garantindo suporte adequado aos participantes estrangeiros do evento. A estratégia integra o Plano Integrado de Segurança, elaborado pela Sejusp-MS (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Mato Grosso do Sul).
O serviço será disponibilizado no Ciops (Centro Integrado de Operações de Segurança Pública), por meio do Copom (Centro de Operações da Polícia Militar) e do COCB (Centro de Operações do Corpo de Bombeiros Militar).
Os profissionais responsáveis pelos atendimentos nos números de emergência 190 e 193 receberam preparo para prestar suporte em inglês e espanhol, facilitando a comunicação com os visitantes de outros países.
A Polícia Militar de Mato Grosso do Sul também capacitou 23 militares para integrarem o núcleo especializado de policiamento turístico. Os profissionais receberam treinamento voltado ao atendimento ao visitante, mediação de conflitos, protocolos de segurança em eventos internacionais e interação com turistas estrangeiros.

Plano Integrado de Segurança
O plano integrado de segurança para a COP15 vem sendo elaborado desde julho de 2025, em parceria com órgãos das esferas federal, estadual e municipal. O objetivo é garantir um ambiente seguro e organizado para os participantes do evento, com ações coordenadas de policiamento, fiscalização e monitoramento.
Durante a conferência, as operações serão acompanhadas a partir do Gabinete de Ações Integradas, instalado no CICC-MS (Centro Integrado de Comando e Controle de Mato Grosso do Sul), reunindo representantes de diversas instituições de segurança, inteligência e trânsito. O planejamento também prevê patrulhamento aéreo, reforço do policiamento ostensivo e a atuação de unidades especializadas da Polícia Militar.
Dentre as ações, o plano inclui reforço do policiamento em pontos turísticos do Estado, especialmente nos municípios de Bonito, Jardim, Ponta Porã, além da região do Pantanal. A atuação contará com equipes do Comando de Policiamento Ambiental, do Batalhão Rural e do DOF (Departamento de Operações de Fronteira). Já o Corpo de Bombeiros Militar ficará responsável pelas atividades de prevenção e combate a incêndios, além do atendimento pré-hospitalar no local do evento.
COP15 em Campo Grande
Campo Grande sediará a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres entre os dias 23 e 29 de março de 2026. O evento internacional é organizado pela ONU (Organização das Nações Unidas) e pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
A conferência reunirá representantes de governos, cientistas, organizações internacionais e da sociedade civil de mais de 130 países.
A COP15 integra a Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias, um tratado ambiental global criado em 1979 pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, que reúne países para definir estratégias de proteção de espécies migratórias e fortalecer a cooperação internacional na área ambiental.

Midiamax





