Enquanto os Estados Unidos continuam um significativo reforço militar no Oriente Médio, o Irã tomou medidas para sinalizar sua prontidão para a guerra, incluindo o fortalecimento de suas instalações nucleares e a reconstrução de fábricas de mísseis.
Negociadores iranianos e americanos realizaram conversas indiretas em Genebra durante três horas e meia na terça-feira (17), mas o encontro terminou sem uma resolução clara.
O principal diplomata iraniano, Abbas Araghchi, afirmou que os dois lados concordaram com um conjunto de "princípios orientadores", mas o vice-presidente americano, JD Vance, disse que os iranianos não reconheceram as "linhas vermelhas" estabelecidas pelo presidente dos EUA, Donald Trump.
Apesar das negociações em curso, a Casa Branca foi informada de que as forças armadas dos EUA poderiam estar prontas para um ataque até o fim de semana, após o aumento recente da presença aérea e naval no Oriente Médio, disseram fontes familiarizadas com o assunto à CNN.
Em meio à ameaça de guerra, o Irã passou os últimos meses reparando instalações de mísseis importantes e bases aéreas gravemente danificadas, ao mesmo tempo em que continuou a ocultar seu programa nuclear.
O país nomeou veteranos de guerra para suas estruturas de segurança nacional, realizou exercícios militares marítimos no Golfo Pérsico e lançou uma intensa repressão à dissidência interna.
Reparos após conflito com Israel
Em junho do ano passado, Israel lançou um ataque surpresa contra o Irã que destruiu partes de seu programa nuclear, danificou gravemente instalações de produção de mísseis e matou importantes comandantes militares.
Durante os 12 dias de conflito que se seguiram, Teerã lançou centenas de mísseis e drones contra cidades israelenses, enquanto os EUA atacaram três instalações nucleares iranianas — com o presidente americano Donald Trump afirmando que elas haviam sido “totalmente destruídas”.
As nações ocidentais têm falhado consistentemente em persuadir o Irã a restringir seu programa de mísseis, que Teerã considera um pilar central de sua força militar e um direito à sua autodefesa.
Apesar de ter sofrido pesadas perdas na guerra com Israel, análises de imagens de satélite revelam que o Irã reconstruiu instalações de mísseis danificadas.
Imagens de satélite da Base de Mísseis Imam Ali em Khorramabad, capturadas em 5 de janeiro, mostram que, das doze estruturas destruídas por Israel, três foram reconstruídas, uma foi reparada e outras três estão atualmente em construção.
A instalação abriga silos de lançamento essenciais para o disparo de mísseis balísticos, com terraplenagem e construções ao redor.
Outras duas bases militares também passaram por extensos reparos. Na base aérea de Tabriz, no noroeste do país, ligada aos mísseis balísticos de médio alcance do Irã, as pistas de taxiamento e de pouso e decolagem foram restauradas.
Em outra base de mísseis ao norte da cidade, foram realizados extensos trabalhos após a guerra. Todas as entradas foram reabertas após terem sido bloqueadas por bombardeios, a área de apoio próxima à entrada foi praticamente reconstruída e alguns túneis agora estão abertos, segundo análise da CNN e Sam Lair, pesquisador associado do CNS (Centro James Martin de Estudos de Não-Proliferação).
Na base aérea de Hamadan, no oeste do Irã, as crateras causadas por bombas na pista foram preenchidas e os hangares de aeronaves foram reparados, conforme uma análise da CNN e de Lair.
O Irã também reconstruiu rapidamente sua maior e mais moderna fábrica de mísseis de propelente sólido em Shahrud, uma tecnologia que permite o rápido lançamento de mísseis de longo alcance.
“Acho que o local mais importante é Shahrud. Os danos lá foram reparados muito rapidamente”, afirmou o pesquisador. “Havia também uma nova linha de produção em construção durante a guerra, que não foi danificada e provavelmente já está operacional, o que significa que, paradoxalmente, a produção de motores de mísseis de propelente sólido pode ser maior agora do que antes da guerra, pelo menos naquele local.”
Reforço das instalações nucleares
Apesar de demonstrar flexibilidade na limitação de seu programa nuclear, o Irã está reforçando rapidamente diversas de suas instalações nucleares, utilizando concreto e grandes quantidades de terra para soterrar pontos-chave, de acordo com novas imagens de satélite e análises do ISIS (Instituto para Ciência e Segurança Internacional).
Imagens de satélite de alta resolução de 10 de fevereiro de 2026, analisadas pelo ISIS, mostram o Irã continuando a reforçar as entradas dos túneis no complexo subterrâneo escavado na Montanha da Picareta, perto de Natanz.
Concreto fresco é visível nas entradas oeste e leste, aumentando a proteção que poderia ajudar a resguardar a instalação de possíveis ataques aéreos, além de caminhões e outros equipamentos de construção no local.
Em uma instalação nuclear conhecida como "Taleghan 2", no complexo militar de Parchin, a sudeste de Teerã, imagens de satélite divulgadas esta semana mostram que o Irã concluiu a construção de um sarcófago de concreto ao redor do local e agora o está cobrindo com terra, segundo o instituto de Washington especializado em não proliferação nuclear.
"A instalação pode em breve se tornar um bunker completamente irreconhecível, oferecendo proteção significativa contra ataques aéreos", alertou o presidente do ISIS, David Albright, em uma publicação na rede social X.
No complexo industrial de Tir, número 7, perto de Isfahan, no centro do Irã, ligado à produção de peças para centrífugas de enriquecimento de urânio, as estruturas danificadas foram reconstruídas, segundo análise de imagens revisada pela CNN. O complexo foi alvo de sanções da ONU em outubro de 2025.
“Acredito que o Irã esteja reconstituindo seus programas nucleares e de mísseis, provavelmente mais rápido do que Israel alegou ser possível durante a Operação Leão Ascendente”, afirmou Jeffrey Lewis, renomado acadêmico de Segurança Global do Middlebury College, à CNN, referindo-se aos ataques israelenses de junho.
“A reconstrução dos edifícios, bem como outras informações, sugerem que o Irã foi capaz de substituir esse equipamento ou transferi-lo para locais seguros no subsolo antes dos ataques”, acrescentou ele.
Reformulando a governança
O conflito do ano passado com Israel expôs as fragilidades das estruturas de comando do Irã sob pressão, com relatos de que o Líder Supremo Ali Khamenei se tornou cada vez mais inacessível e a autoridade foi descentralizada para os governadores provinciais.
Desde então, Teerã fortaleceu o Conselho Supremo de Segurança Nacional, chefiado por Ali Larijani, confidente de Khamenei, e formou uma nova autoridade — o Conselho de Defesa — para governar em tempos de guerra.
O veterano de guerra e ex-comandante da IRGC (Guarda Revolucionária Islâmica), Ali Shamkhani, que sobreviveu a uma tentativa de assassinato por parte de Israel durante a guerra do ano passado, foi nomeado este mês secretário do Conselho de Defesa, com o objetivo de "fortalecer de forma abrangente os preparativos de defesa" e desenvolver "mecanismos para combater ameaças emergentes", segundo a agência de notícias Nour News, ligada ao aparato de segurança do Irã.
Hamidreza Azizi, pesquisador visitante do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança, afirmou que a nomeação de Shamkhani sinaliza que o Irã está se preparando para a possibilidade de um ataque de decapitação dos EUA — potencialmente visando o próprio líder supremo.
“A questão da sucessão pós-Khamenei está se tornando uma questão mais imediata, e eles estão se preparando para isso… se isso vai acontecer ou não, depende de muitos fatores, como a escala de um possível ataque ou campanha dos EUA. Mas é pelo menos isso que eu consigo ver acontecendo dentro do sistema”, disse ele a Becky Anderson, da CNN.
Repressão à dissidência
Os ataques de Israel ao Irã em junho foram precedidos por uma sofisticada infiltração da agência de espionagem israelense Mossad, uma tática que intensificou o já paranoico estado do regime iraniano.
O Irã intensificou sua repressão à dissidência em meio a temores de que uma guerra possa desencadear uma mudança de regime. No mês passado, as forças de segurança reprimiram brutalmente protestos em todo o país, matando milhares e prendendo muitos outros na mais sangrenta repressão a manifestações na história da República Islâmica.
O regime acusou os manifestantes de serem espiões israelenses e mobilizou a brutal força paramilitar local Basij para reprimir os protestos, que, embora motivados pela crise econômica, transformaram-se em reivindicações por uma mudança de regime.
E a crescente paranoia do regime chegou até mesmo a níveis internos. Na semana passada, quatro reformistas proeminentes que fizeram campanha para o presidente Masoud Pezeshkian foram detidos pelas forças de segurança iranianas e acusados de incitar a violência contra o país e de tentar destruir a coesão nacional por meio da disseminação de informações falsas contra o país.
Jogos de guerra
Enquanto negociadores iranianos se reuniam com os EUA em Genebra, o Irã lançou exercícios navais no Golfo Pérsico para demonstrar suas capacidades disruptivas aos aliados regionais de Washington.
Pela primeira vez, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã fechou partes do Estreito de Ormuz por algumas horas durante exercícios navais, segundo a mídia iraniana.
O ponto de estrangulamento crucial está localizado entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, por onde passa um quinto da produção mundial de petróleo diariamente.
Autoridades iranianas já haviam ameaçado fechar o estreito em resposta às tensões com o Ocidente, um cenário que poderia causar turbulências no mercado global de energia.
A Marinha do Irã também realizou um exercício conjunto com a Rússia no Golfo de Omã e no norte do Oceano Índico, onde os dois lados simularam a retomada de um navio sequestrado, segundo a mídia estatal iraniana.
Este mês, os EUA enviaram dois porta-aviões para a região, e um deles abateu um drone iraniano que se aproximava agressivamente no Mar Arábico.
Anteriormente, duas lanchas da Guarda Revolucionária Islâmica se aproximaram de um petroleiro de bandeira americana no Estreito de Ormuz e ameaçaram abordá-lo e apreendê-lo, segundo um porta-voz militar dos EUA.
Em meio ao aumento da presença militar americana e aos preparativos de guerra do Irã, especialistas afirmam que autoridades iranianas estão tentando enviar uma mensagem aos Estados Unidos.
“A tática iraniana é tentar convencer os Estados Unidos de que a guerra terá um custo elevado”, afirmou Vali Nasr, professor da Universidade Johns Hopkins. “Não será como em junho. Não será como na Venezuela, onde os Estados Unidos terão que arcar com certos custos e calcular esses custos antes de atacar o Irã”, explica ele.
CNN Brasil





